A Bolsa de Turismo de Lisboa foi adiada e os hotéis receiam Páscoa perdida, quando até tinham mais reservas. “É um ano esquizofrénico”

Era tão certo como estar escrito nas estrelas: Portugal preparava-se em 2020 para ter um crescimento turístico de 5% a 7%, em linha com o que ocorreu em 2019, segundo avançou ao Expresso há menos de um mês a secretária de Estado do Turismo, Rita Marques. As incertezas do ano resumiam-se ao impacto do ‘Brexit’ ou às limitações do aeroporto de Lisboa.

Não era previsível a dimensão que um vírus poderia alcançar a nível global, espalhando-se tão rapidamente como o riscar de um fósforo da China para a Europa e outros continentes, pondo o mundo em pé de alerta, a cancelar viagens, reuniões, congressos e feiras, com todos os prejuízos a isso associados. Sinal desta apreensão global, também a Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL), que ia realizar-se a 14 de março, acabou por ser adiada para 27 de maio, à semelhança de grandes feiras de turismo, como a de Paris ou a de Berlim.

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) já antecipou que o stress gerado com o coronavírus deverá trazer uma quebra de 4,8% do negócio em 2020, equivalente a perdas superiores a €26 mil milhões, em vez do esperado aumento de 4,1% – e a TAP já anunciou até abril o corte de mil voos. Mas no negócio turístico em Portugal ainda ninguém consegue quantificar o grau em que o vírus pode infetar um sector cuja boa saúde prometia continuar a alastrar-se beneficamente a toda a economia.

Os alarmes soaram sobretudo com a quebra de reservas para a Páscoa, o primeiro pico turístico do ano. “Ou isto se cura rapidamente ou teremos um impacto fortíssimo na Páscoa, e a durar assim mais 15 dias pode comprometer os resultados do ano”, adverte Cristina Siza Vieira, presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), que lançou um inquérito para avaliar o impacto que o vírus está a trazer para o sector.

“Mais do que os cancelamentos que eram expectáveis, a nossa grande preocupação está no abrandamento de reservas futuras”, refere Cristina Siza Vieira, lembrando que os cancelamentos vêm sobretudo de Itália, China ou Coreia do Sul, estando neste último caso a afetar em cheio o destino Fátima, que prepara as celebrações a 13 de maio. Mas também EUA ou Brasil se estão a retrair nas reservas, deixando os hotéis apreensivos. “A expectativa geral é que se possa retomar o cenário business as usual o mais rapidamente possível”, nota a responsável da AHP, lembrando que os turistas estão tão ansiosos como os empresários por voltar às viagens. Com o surto ainda em crescimento na Europa, Cristina Siza Vieira afirma ser prematuro fazer previsões, e “estes 40 dias de Quaresma até à Páscoa estão a ser uma verdadeira quarentena para os nosso hotéis”.

Algarve tinha mais 30% de reservas em fevereiro

Os danos são colaterais a outros sectores, atingindo à cabeça o emprego. Se hotéis, restaurantes e outras empresas turísticas reclamam fundos de apoio à tesouraria com a crise do coronavírus, também “estão a pôr travão a fundo nas contratações de pessoal para o verão”. Os resultados poderão vir a ser compensados no segundo semestre? “Com um abrandamento severo na Páscoa, o turismo pode ser resiliente a muita coisa, mas não é imune a vírus, e dificilmente atingiremos os resultados previstos”, considera Cristina Siza Vieira.

No caso do Algarve, 2020 tinha tudo para ser um ano em alta, “e até meados de fevereiro as reservas para o primeiro semestre estavam 30% acima do que estavam no ano passado”, adianta João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve. Nas últimas semanas, tudo mudou, “o receio de viajar está a atrasar reservas que seriam naturais até maio”, e em acalmando o Covid-19 é de esperar um reaquecimento rápido da procura. “Vamos tentar no segundo semestre recuperar o que se perdeu, mas na totalidade vai ser difícil. É um ano quese esquizofrénico”, conclui.

Fonte: Expresso


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