Escassez de recursos humanos, sazonalidade e aeroporto de Lisboa são as grandes questões para o futuro do turismo.

Se estiver num espaço público, decerto já não achará estranho se ouvir alguém falar em estrangeiro. Até mesmo em sua casa, diga-se, se estiver a receber uma pessoa em alojamento local. Ou Portugal não estivesse há uns anos a esta parte a bater recordes históricos no que toca a visitas turísticas. Só que, atingida a parte do crescimento, chega agora a parte complicada. Manter e dar bases de sustentabilidade para que os números (e visitantes, já agora) não se evaporem e continuem a dar um contributo para a economia que, em 2018, representou 19,1% da riqueza produzida, segundo dados do World Travel & Tourism Council.

Dados que apontam Portugal como o quinto país onde é mais forte a contribuição do turismo para o PIB, neste caso 8,2%. “Continuamos na mente das pessoas”, atira Cristina Siza Vieira. “Atingimos a posição de destino de primeira linha” e, agora, manter esse lugar “exige um acompanhamento constante”, garante a diretora executiva da Associação da Hotelaria de Portugal. A responsável fez parte dos comités técnicos de avaliação do Prémio Nacional de Turismo, a distinção que junta Expresso e BPI para reconhecer os melhores exemplos nacionais do sector — cujos finalistas em cada uma das áreas pode conhecer na caixa do lado direito —, e acredita que estamos a viver as dores de crescimento habituais. O passo seguinte é perceber como capitalizar melhor as 66 milhões de dormidas que se registaram em 2018, segundo a 14ª Edição do Atlas da Hotelaria da Deloitte. Os próximos dois anos, “a começar já”, vão ser de “abrandamento mais acentuado”, e os desafios estão identificados.

“Temos de perceber que não vamos continuar a crescer nos dois dígitos”, avança Luís Araújo, num sentimento ecoado pelos principais atores do sector relativamente ao abrandamento do crescimento. Para o presidente do Turismo de Portugal, entre as grandes questões que podem fazer a diferença entre definir o sector como uma história de sucesso sustentado ou uma estrela cadente, a gestão de recursos humanos surge como uma luta fulcral pelo talento disponível. “Temos de atrair mais e qualificar mais” para melhorar a qualidade dos serviços, com a meta de “aumentar os salários”. E uma certeza: “Isto é uma maratona” para fazer “com que o turismo seja a primeira opção e não a segunda.”

Estrangulamento

Já o presidente do Grupo de Sector dos Restaurantes da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, Antero Jacinto, não tem dúvidas de que “o principal desafio é a crescente dificuldade em encontrar recursos humanos qualificados para as suas necessidades”. No caso da restauração, por exemplo, “os horários são difíceis, e os jovens, e não só, querem ter tempo para si e para os seus”, e por isso é necessário “levar a cabo uma campanha de dignificação e atração” para estas profissões. A hotelaria e o alojamento local também não estão imunes — numa fase em que já entraram em vigor as zonas de contenção ao alojamento local em Lisboa —, e Eduardo Miranda, presidente da Associação de Alojamento Local em Portugal, defende que estamos num momento que “devemos aproveitar para aumentar o nível qualitativo.” Sem esquecer a necessidade de fomentar políticas “que promovam a imigração”, como já está a ser feito “com países dos PALOP”, e ajudem a suprir estas necessidades.

A sazonalidade é outra das questões levantadas pelos responsáveis do sector. E se é certo que o crescimento turístico tem trazido mais regiões para os roteiros, também é certo que o trabalho ainda está em progresso. Um desses casos é os Açores, e a diretora regional do Turismo, Marlene Damião, revela que “o combate à sazonalidade e a consequente distribuição de fluxos turísticos por todas as ilhas ao longo de todo o ano” é uma das grandes prioridades do Executivo. O aumento de 10,9% no número de empresas de animação turística, entre janeiro e agosto de 2019, é visto como um bom indicador, sem deixar cair a “sustentabilidade ambiental”, que é “obviamente fundamental” e uma preocupação constante.

Pelo seu lado, o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, Luís Pedro Martins, destaca o “marketing digital” como forma de atrair mais visitantes ao longo do ano e pede um maior “trabalho em rede entre as diferentes entidades do ecossistema”. Ainda há “espaço para que as empresas de animação turística cresçam mais”, considera, principalmente “em áreas menos exploradas”.

A tudo isto ainda há a acrescentar o principal porto de entrada do país, o aeroporto de Lisboa. A palavra “estrangulamento” é mencionada mais do que uma vez nas conversas feitas para este artigo, e os operadores falam da importância de construir uma nova estrutura. “Para crescer, precisamos de um novo aeroporto”, defende Luís Araújo, porque desse aumento de capacidade também depende muito a abertura de mais destinos e a redução da dependência de alguns países. É um passo para “continuarmos a acrescentar valor”.

O TURISMO EM NÚMEROS

3

mil milhões de euros é o valor das receitas turísticas em Portugal até agosto deste ano, de acordo com o Banco de Portugal. O resultado representa uma subida de 5,9%, mais precisamente €166,2 milhões face ao mesmo período em 2018

40

mil empregos é quanto a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal estima que faltem preencher no sector para garantir a qualidade do serviço, apesar de terem sido criados mais de 69 mil empregos entre 2015 e 2018

800

mil é o número aproximado de camas que se encontram no alojamento local, três vezes mais do que as 200 mil que se encontram na oferta hoteleira tradicional

33,5

por cento é a taxa de sazonalidade que o Turismo de Portugal espera que seja atingida em 2027, de acordo com as metas estabelecidas. Em 2018, o valor fixou-se nos 36,4% e o objetivo é alargar a atividade turística a todo o ano

Quatro categorias, 20 finalistas

Alojamento:

Pine Cliffs, a Luxury Collection Resort
São Lourenço do Barrocal
Torre de Palma Wine Hotel
H2otel — Congress & Medical Spa
Areias do Seixo Empreendimentos Hoteleiros, Lda.

Alojamento Local:

Palácio Belmonte
The Passenger Hostel
Aldeia da Cuada
Farmhouse of the Palms
Resort Natureza Villa Rio

Restauração:

Alma, Henrique Sá Pessoa
Restaurante A Cozinha by António Loureiro, Lda.
Feitoria Restaurante & Wine Bar
Theatro
Pesca

Serviços Turísticos:

Time Out Market Lisboa
The Presidential Train
Parques de Sintra — Monte da Lua, S. A.
Vertigem Azul
PátioTurismo Sociedade Unipessoal, Lda.

Gala no Estoril

É no dia 28 de novembro, quinta-feira, que são conhecidos os grandes vencedores do Prémio Nacional do Turismo em cada uma das quatro categorias. O evento vai decorrer na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril e vai incluir uma prova realizada pelos alunos em que serão reinterpretados os sabores que simbolizam cada uma das sete regiões de turismo nacionais.

Fonte: Expresso


0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PT
EN PT