Instituições brasileiras estão reforçando presença no país em meio a Brexit e onda migratória.

Grandes bancos brasileiros estão reforçando a presença em Portugal, de olho especialmente nas fortunas dos expatriados. Além de ostentar o título de principal destino do brasileiro que quer morar na Europa — mais de 190 mil vivem lá —, o país europeu é visto como alternativa a substituir Londres como centro financeiro na região, uma consequência da saída do Reino Unido da União Europeia. Em função do Brexit, há o risco de que bancos que tinham presença apenas em Londres sejam impedidos de atender clientes de outros países do bloco europeu.

O BTG Pactual é um dos bancos que está reforçando a operação em Portugal. Após abrir um escritório de representação no país em janeiro, optou agora por ampliar a estrutura, estabelecendo uma gestora. Em entrevista ao Valor, o diretor financeiro do BTG, João Dantas, afirma que a nova unidade reforçará o atendimento dos brasileiros que vivem na Europa. “É importante ter essa base, que é complementar aos nossos negócios. Com ela seremos capazes de fazer o atendimento comercial, de apoio, atuar na originação, gestão, com ativos financeiros”, conta.

Em janeiro, quando o escritório de representação do BTG foi aberto em Portugal, Ricardo Borgerth, chefe da operação no país, afirmou que a meta era triplicar o valor sob gestão nos próximos três a cinco anos. Dantas não revela números, mas diz que a operação portuguesa já tem “uma densidade muito interessante”, com forte crescimento do número de clientes e do “share of wallet” — ou seja, do percentual da carteira desses clientes que é alocado com o banco.

O Itaú Unibanco, que está em Portugal desde 1994, mas com algumas idas e vindas, voltou a olhar com mais atenção para suas operações no país. Em 2011, com a crise que atingiu os países do sul da Europa e o risco de os portugueses perderem o grau de investimento, a sede do banco foi transferida para Londres. Recentemente, com o Brexit, o Itaú decidiu reativar sua licença bancária em Portugal. “Há uma diferença grande entre nós e concorrentes que estão chegando agora a Portugal. Nós nunca deixamos de estar lá, temos uma presença de 26 anos. A vontade de atender clientes pessoa física lá já existia antes do Brexit, mas isso acabou acelerando nosso pedido por uma licença bancária”, conta Luiz Estrada, diretor do Itaú Private Bank em Portugal.

Até 2018, o Itaú mantinha em Portugal uma estrutura basicamente voltada para empresas, com operações de corporate e investment banking. A área de gestão de fortunas era atendida por meio da subsidiária do banco na Suíça, mas, pelo fato de o país não fazer parte da União Europeia, o Itaú não podia servir integralmente esses clientes.

“Com o forte fluxo recente de migração de brasileiros para Portugal, sentimos a importância de ter uma presença física maior, com equipe comercial, para visitar clientes, estar em contato mais próximo, fazer uma prospecção proativa”, conta Estrada. Sem a licença, o banco não podia buscar ativamente clientes, apenas atender aqueles que procuravam a instituição.

O Itaú tem atualmente cerca de 120 funcionários em solo português. O banco não abre números específicos de Portugal, mas diz que o total sob administração na Suíça — que inclui algumas famílias brasileiras em Portugal — é de cerca de US$ 9 bilhões. A instituição aponta que, apesar de haver mais de 190 mil brasileiros morando em Portugal — sem contar aqueles com dupla cidadania —, o total de possíveis clientes da área de private banking, aqueles com investimentos financeiros acima de US$ 1 milhão, gira em torno de 700 a mil famílias.

O Banco do Brasil (BB), segundo o Valor apurou, também está revendo sua estrutura em Portugal. Logo que assumiu, em setembro, o novo presidente, André Brandão, abordou o tema da presença internacional em uma conversa interna com funcionários. “Uma das coisas que eu espero do Banco do Brasil é: por que a gente não atende os clientes brasileiros no exterior? Isso é uma coisa que o banco já fez, eu sei que fez investimentos para seguir o nosso cliente no exterior. Eu acho que a situação tem que ser avaliada com um pouco mais de detalhe, mas vejo ali uma oportunidade”, disse na ocasião.

Em maio, o Valor havia noticiado que o BB estava acelerando a reestruturação das operações internacionais, reforçando a atuação do private em Lisboa e Miami, mas fechando as dependências em Madri e Milão. A agência em Paris também pode mudar de formato, com a carteira de clientes sendo transferida para a unidade em Portugal.

Procurado pela reportagem, o BB disse que a reestruturação das operações internacionais tem o objetivo de ganhar mais eficiência. “Entre as mudanças, estão o reforço da atuação em praças que se mostram mais relevantes em nossa operação comercial e o encerramento em outras que apresentam menor retorno”, informou por meio de nota.

Desde o fim do ano passado o Bradesco, que já tem unidades em Londres e Luxemburgo, estuda ir para Portugal. Procurado, o banco disse que “avalia essa possibilidade, mas ainda não há uma definição nesse sentido”.

Já a XP espera começar “em breve” a atuar no país. A operação será liderada por Otávio Mesquita, que já se mudou para lá.

Com o sistema de “passporting” que existe na UE, a presença em Portugal dá aos bancos brasileiros a possibilidade de atender clientes de outros países do bloco. Isso é importante porque, em meio aos atrasos e dificuldades nas tratativas do Reino Unido com a UE, não se sabe ao certo como ficará a situação dos bancos com presença em Londres para atender clientes de outros países do continente.

Dantas diz que os planos do BTG de abrir uma gestora em solo português já se justificavam pela base de clientes no país, mas que a possibilidade trazida pelo “passporting” é uma vantagem adicional. O BTG não comenta, mas fontes de mercado dizem que o banco estuda no futuro abrir uma corretora na Europa, porém ainda não teria decidido em qual país. Por enquanto, não veria necessidade de ter uma licença bancária propriamente dita.

No Itaú, Estrada diz que a pandemia fez com que o contato com os clientes tivesse de ser virtual, mas o desempenho nos primeiros meses após o início da operação com a nova licença bancária está em linha com o que se esperava. “Estamos tendo boas surpresas, o tom é muito positivo. Estamos entendendo melhor a base de produtos que podemos oferecer”, explica o executivo.

O BTG já teve o controle de uma operação grande de gestão de fortunas na Europa, quando comprou o suíço BSI, em 2014. Entretanto, a experiência não foi das melhores. A unidade foi alvo de investigações sobre lavagem de dinheiro e pagou dezenas de milhões de francos em multas. O BTG acabou vendendo o BSI para o rival suíço EFG, em 2016, ficando com uma fatia de 30% na instituição combinada.

“O BSI era um banco maduro, um negócio que não fomos nós que montamos. As dificuldades que tivemos não eram em relação à estratégia, mas a questões anteriores à aquisição. Nós preferimos montar um negócio do zero, porque aí sabemos como estamos fazendo”, conta Dantas.

Apesar da expansão internacional na área de wealth management, o executivo diz que o BTG não tem planos de levar seu banco digital de varejo, o BTG+, para fora do Brasil. O mesmo vale para outros bancos brasileiros, segundo o Valor apurou. “Um banco de varejo, mesmo digital, depende de escala, que é algo que o private, sozinho, não dá conta. Não tem como montar um banco de varejo para mil pessoas”, afirma uma fonte.

Fonte: Valor Econômico


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