{"id":755,"date":"2019-09-12T20:23:00","date_gmt":"2019-09-12T20:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/europar1.codetec.pt\/?p=755"},"modified":"2023-07-30T20:23:33","modified_gmt":"2023-07-30T20:23:33","slug":"lisboa-depois-do-boom-turistico-e-do-investimento-estrangeiro-a-crise-na-habitacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/europar.pt\/en\/lisboa-depois-do-boom-turistico-e-do-investimento-estrangeiro-a-crise-na-habitacao\/","title":{"rendered":"Lisboa: Depois do &#8220;boom&#8221; tur\u00edstico e do investimento estrangeiro, a crise na habita\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>O retrato de Lisboa como cidade de im\u00f3veis devolutos e degradados deu lugar a uma vers\u00e3o &#8216;very typical&#8217; de uma regi\u00e3o que cresceu com o &#8216;boom&#8217; tur\u00edstico e o investimento estrangeiro no imobili\u00e1rio, enfrentando hoje uma crise na habita\u00e7\u00e3o. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">Al\u00e9m do burburinho das obras de reabilita\u00e7\u00e3o, Lisboa foi invadida pela desordem ruidosa das malas de viagem a calcorrear a cal\u00e7ada portuguesa &#8211; uma parte de turistas e residentes estrangeiros que se instalam na cidade, outra de fam\u00edlias portuguesas despejadas de casas arrendadas e &#8216;empurradas&#8217; para os concelhos perif\u00e9ricos, devido \u00e0 subida do pre\u00e7o das casas. <\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de a crise coincidir com o &#8216;boom&#8217; tur\u00edstico, propriet\u00e1rios e inquilinos dizem que um dos principais respons\u00e1veis pelos aumentos foi o investimento de estrangeiros no mercado imobili\u00e1rio, sobretudo atrav\u00e9s dos Vistos Gold. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como as pessoas [cidad\u00e3os estrangeiros] tinham de investir, necessariamente, 500 mil euros, isso provocava uma subida do imobili\u00e1rio&#8221;, afirma o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Lisbonense de Propriet\u00e1rios, Lu\u00eds Menezes Leit\u00e3o, em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 Lusa, culpando o Governo pela quebra da oferta no arrendamento, devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es legislativas, como a prorroga\u00e7\u00e3o do per\u00edodo transit\u00f3rio dos contratos com rendas antigas, o que criou uma &#8220;crise de confian\u00e7a&#8221; no mercado. <\/p>\n\n\n\n<p>No distrito de Lisboa, o aumento do pre\u00e7o das rendas &#8220;est\u00e1 a ser muito grande&#8221;, com subidas na &#8220;ordem dos 8% ao ano&#8221;, diz Menezes Leit\u00e3o, explicando que a din\u00e2mica &#8220;come\u00e7a na capital e depois vai-se expandindo, como se fosse uma onda, para os concelhos lim\u00edtrofes&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, indicou, houve uma quebra de 20% nos contratos de arrendamento na capital. Este ano, prev\u00ea-se &#8220;uma quebra semelhante&#8221; e &#8220;\u00e9 muito prov\u00e1vel que as rendas subam muito mais&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Inquilinos Lisbonenses, Rom\u00e3o Lavadinho, foram muitos estrangeiros a comprar propriedade em Portugal, colocando os im\u00f3veis no mercado de arrendamento a valores muito especulativos: &#8220;J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os privados portugueses que fazem valores especulativos, mas s\u00e3o os propriet\u00e1rios privados estrangeiros que tamb\u00e9m beneficiam disso&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Houve um aumento dos despejos, especialmente por quest\u00f5es do chamado &#8216;bullying&#8217;, ou seja, da press\u00e3o que os propriet\u00e1rios t\u00eam feito sobre os inquilinos&#8221;, refere, acrescentando que a inten\u00e7\u00e3o foi aumentar o valor das rendas com a celebra\u00e7\u00e3o de novos contratos ou a transa\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis. <\/p>\n\n\n\n<p>Os inquilinos lamentam que na cidade de Lisboa as rendas cheguem a 20 euros por metro quadrado, resultando em valores de 2.000 euros para casas de 100 metros quadrados. Na periferia a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 menos grave, mas n\u00e3o deixa de preocupar: &#8220;A norte do Tejo, na Amadora, Queluz, Sintra, etc., os m\u00ednimos n\u00e3o s\u00e3o menos de 850, 1.000 euros&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Propriet\u00e1rios e inquilinos falam tamb\u00e9m do impacto do alojamento local, com senhorios a direcionarem a oferta de arrendamento tradicional para alojar turistas ou a utilizarem im\u00f3veis devolutos para esse fim, sobretudo no centro hist\u00f3rico da capital. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O alojamento local faz parte de uma transforma\u00e7\u00e3o grande de Lisboa&#8221;, sublinha o presidente da Associa\u00e7\u00e3o do Alojamento Local em Portugal, Eduardo Miranda, admitindo que &#8220;existe uma press\u00e3o a n\u00edvel estrutural em termos de habita\u00e7\u00e3o&#8221;, mas que tal resulta da &#8220;falta de investimento, falta de oferta, com d\u00e9cadas&#8221;, na habita\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Destacando a &#8220;r\u00e1pida resposta&#8221; do alojamento local ao aumento da procura tur\u00edstica, Eduardo Miranda afirma que o crescimento da atividade no distrito de Lisboa representa hoje 30% do total a n\u00edvel nacional. Eventos como a Web Summit e a Champions League, diz, n\u00e3o eram sequer vi\u00e1veis em Lisboa sem esta oferta. <\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o alojamento local regista um abrandamento, com um ritmo menor de crescimento, de perto de 50% no distrito de Lisboa e de 60% na capital, revelou o representante, salientando que &#8220;n\u00e3o \u00e9 uma atividade de investimento imobili\u00e1rio, de rentabiliza\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, \u00e9 uma atividade de pessoas que querem e gostam da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os&#8221;, em que quase 90% dos operadores s\u00e3o fam\u00edlias, micro e pequenas empresas. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se n\u00e3o fosse o alojamento local, muita desta procura n\u00e3o tinha destino&#8221;, reconhece a presidente executiva da Associa\u00e7\u00e3o da Hotelaria de Portugal (AHP), Cristina Siza Vieira, considerando &#8220;saud\u00e1vel&#8221; a concorr\u00eancia entre diferentes ofertas de alojamento. <\/p>\n\n\n\n<p>Na hotelaria, houve &#8220;um &#8216;boom&#8217; grande nas dormidas&#8221; em 2016 e 2017 no distrito, mas com um crescimento m\u00e9dio &#8220;sustentado&#8221;, quer em termos da oferta, quer em termos da procura. Ainda assim, acrescenta, a capacidade m\u00e1xima da oferta nunca se esgotou. <\/p>\n\n\n\n<p>A taxa de ocupa\u00e7\u00e3o hoteleira em Lisboa foi de 81% durante 2018, enquanto a m\u00e9dia nacional ficou em 70%. Segundo a AHP, houve mais 12 hot\u00e9is no distrito de Lisboa, contabilizando-se 189 no total de 1.362 unidades hoteleiras em Portugal, e est\u00e1 prevista, para este ano, a abertura de &#8220;cerca de 25 hot\u00e9is&#8221; na \u00e1rea metropolitana. <\/p>\n\n\n\n<p>Classificando o imobili\u00e1rio como &#8220;petr\u00f3leo e ouro&#8221; do pa\u00eds, o presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Profissionais e Empresas de Media\u00e7\u00e3o Imobili\u00e1ria de Portugal, Lu\u00eds Lima, destaca a &#8220;recupera\u00e7\u00e3o total&#8221; no mercado de compra e venda, em consequ\u00eancia do investimento estrangeiro, durante os \u00faltimos quatro anos, per\u00edodo em que &#8220;n\u00e3o houve um investimento a n\u00edvel do mercado de arrendamento&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Investiu-se mais, sublinha, no alojamento local e a oferta tornou-se escassa: &#8220;Quando h\u00e1 muita oferta e pouca procura, os pre\u00e7os crescem para n\u00edveis que os cidad\u00e3os portugueses n\u00e3o podem pagar&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no setor da habita\u00e7\u00e3o, com grande impacto em Lisboa, os inquilinos recordam a &#8220;retirada de direitos&#8221; com a lei Cristas de 2012, que liberalizou o arrendamento, enquanto os propriet\u00e1rios criticam a cria\u00e7\u00e3o do imposto Mort\u00e1gua, designado Adicional do Imposto Municipal sobre Im\u00f3veis, que se aplica apenas a im\u00f3veis habitacionais. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um distrito de realidades diferentes que elege 48 deputados<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O distrito de Lisboa, com 1,9 milh\u00f5es de eleitores, est\u00e1 dividido entre concelhos rurais e outros mais metropolitanos na proximidade da capital, onde se tem registado um aumento do valor das habita\u00e7\u00f5es e do n\u00famero de turistas estrangeiros. <\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o projeto Eyedata, que re\u00fane os \u00faltimos dados oficiais disponibilizados, o distrito tem mais de 2,25 milh\u00f5es de residentes, dos quais 9,35% estrangeiros com autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia, e segue a tend\u00eancia nacional de uma popula\u00e7\u00e3o com mais idosos (21,91% t\u00eam mais de 65 anos) do que jovens (apenas 15,88% t\u00eam menos de 15 anos), segundo dados de 2018. <\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00edrculo eleitoral correspondente ao distrito de Lisboa tinha, no final de 2018, 1.914.894 eleitores portugueses, a que se somam 3.345 residentes votantes origin\u00e1rios de pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia e 7.729 outros cidad\u00e3os estrangeiros residentes em Portugal, de acordo com o Di\u00e1rio da Rep\u00fablica. <\/p>\n\n\n\n<p>Nas legislativas de 2015 o distrito elegeu 47 deputados: 18 do PS, 13 do PSD, cinco da CDU, cinco do BE, cinco do CDS-PP e o \u00fanico deputado do PAN, com uma absten\u00e7\u00e3o de 39,42% (43,01% a n\u00edvel nacional). Este ano, contudo, o c\u00edrculo eleitoral passou para 48 assentos no parlamento. <\/p>\n\n\n\n<p>O distrito obt\u00e9m dos \u00edndices mais elevados de poder de compra, de rendimentos per capita e de infraestruturas, mas estes valores m\u00e9dios n\u00e3o t\u00eam em conta as disparidades existentes entre os 16 concelhos, grande parte deles com uma economia assente na ruralidade. <\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos mais recentes, as queixas t\u00eam batido sobretudo no aumento dos pre\u00e7os das casas, fen\u00f3meno que come\u00e7ou em Lisboa e que est\u00e1 progressivamente a alastrar pelos concelhos vizinhos. <\/p>\n\n\n\n<p>Nos 16 munic\u00edpios, o valor m\u00e9dio dos pr\u00e9dios urbanos transacionados mais do que duplicou entre 2010 e 2017, com um aumento de 110%, passando de 68.735 euros por cada im\u00f3vel, sem considerar a \u00e1rea, para o montante de 144.862 euros. <\/p>\n\n\n\n<p>Nestes valores, segundo a Pordata, destaca-se a cidade de Lisboa, onde, apesar de o pre\u00e7o m\u00e9dio em 2010 j\u00e1 ser quase o dobro da m\u00e9dia do distrito, se registou um crescimento de 219% at\u00e9 2017, subindo de 136.155 para 434.567 euros. <\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao turismo, por cada 100 habitantes existiam em 2017 no distrito 3,29 camas em estabelecimentos hoteleiros. Em 2010 estavam dispon\u00edveis no distrito 49.733 camas para turistas e em 2017 eram 74.265, com destaque para os concelhos de Lisboa (passou de 35.258 para 55.598), Cascais (de 7.526 para 8.536), Sintra (1.415 para 3.027), Oeiras (1.554 para 1.937)e Mafra (619 para 1.391). <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, do total de h\u00f3spedes em estabelecimentos hoteleiros, 73,69% eram estrangeiros, segundo a Pordata. <\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edndice do poder de compra per capita do distrito, divulgado pelo Instituto Nacional de Estat\u00edstica (INE) em novembro de 2017, mas relativo a 2015, era de 129,93 (no munic\u00edpio de Lisboa era de 214,5 e o \u00edndice do total nacional de 100,22). <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, o ganho m\u00e9dio mensal de trabalhadores por conta de outrem era de 1.396,18 euros (a n\u00edvel nacional era de 1.108,56 euros) e dados de 2018 revelam que a percentagem de desempregados inscritos (popula\u00e7\u00e3o residente com 15-64 anos) era de 4,50% (quando no pa\u00eds era de 5,54%). <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2018, foram benefici\u00e1rios do rendimento m\u00ednimo e do rendimento social de inser\u00e7\u00e3o 2,67% da popula\u00e7\u00e3o residente no distrito com mais de 15 anos (3,20% no total do pa\u00eds). <\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os Censos de 2011, tinham pelo menos o ensino secund\u00e1rio 40,72% das pessoas com mais de 15 anos deste distrito e dados de 2016 revelam que a taxa dos empregadores com pelo menos o ensino secund\u00e1rio completo era de 60,45%. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, havia 0,77 estabelecimentos de ensino secund\u00e1rio e 4,78 estabelecimentos de ensino pr\u00e9-escolar por cada 10.000 habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p>No final do mesmo ano, havia 7,15 os m\u00e9dicos para cada mil habitantes (5,05 no total nacional) e existiam 2,38 unidades hospitalares p\u00fablicas e privadas para cada 100 mil habitantes (2,19 no total nacional).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste c\u00edrculo eleitoral, em 2017, foram registados pelas pol\u00edcias 393,75 crimes por cada 10 mil habitantes (acima dos 321,58 crimes por 10 mil habitantes registados a n\u00edvel nacional). <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017 foram recolhidos 503,17 quilos de res\u00edduos urbanos por habitante (a m\u00e9dia nacional \u00e9 de 487,29), dos quais 73,14% (50,62% no total nacional) foram preparados para reciclagem. <\/p>\n\n\n\n<p>Nesse mesmo ano, as c\u00e2maras municipais do distrito de Lisboa tinham, em m\u00e9dia, uma d\u00edvida de 338,93 euros por habitante (436,04 era a m\u00e9dia nacional). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Fonte: <strong><a href=\"https:\/\/www.jornaldenegocios.pt\/economia\/politica\/eleicoes\/amp\/lisboa-depois-do-boom-turistico-e-do-investimento-estrangeiro-a-crise-na-habitacao\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Jornal de Neg\u00f3cios (abre numa nova aba)\">Jornal de Neg\u00f3cios<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O retrato de Lisboa como cidade de im\u00f3veis devolutos e degradados deu lugar a uma vers\u00e3o &#8216;very typical&#8217; de uma regi\u00e3o que cresceu com o &#8216;boom&#8217; tur\u00edstico e o investimento estrangeiro no imobili\u00e1rio, enfrentando hoje uma crise na habita\u00e7\u00e3o. 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