O país agora atrai um novo tipo de investidor brasileiro: aquele que deseja uma quinta para viver caso a pandemia exija novos períodos de isolamento.

Executivo da indústria de biotecnologia, o paulista Eduardo Thompson fará de Lisboa sua nova Miami. Radicado com a família na cidade da Flórida desde 2017, passou a quarentena em sua ampla casa com jardim e piscina na cidade americana. Apesar do espaço privilegiado, o objetivo é ter ainda mais liberdade, principalmente em caso de novo confinamento. Para executar seu plano, Thompson visitou e comprou na planta um luxuoso apartamento de três suítes, com terraço, por € 800 mil (R$ 5,21 milhões) em um dos locais mais exclusivos da capital portuguesa. Fez tudo pela internet durante o estado de emergência em Portugal, sem sair de sua casa do outro lado do Atlântico.

A compra, decidida numa tacada, revela uma nova leva de brasileiros escolhendo o país europeu como morada depois da pandemia. Um boom vindo do Brasil ocorreu entre 2015 e 2019, em razão do aprofundamento da crise e dos incentivos dados pelo governo português a quem estivesse interessado em investir no país. Portugal oferece um título de residência permanente chamado “visto gold” a quem aporta recursos e cria postos de trabalho no país ou compra imóveis acima de € 500 mil. Entre janeiro e setembro de 2019, 176 brasileiros transferiram € 132 milhões (R$ 862 milhões) para obterem esse visto, 46,5% a mais do que no ano anterior. Em 2020, com a pandemia, as restrições de viagem e a desvalorização do real, esses números recuaram. Até agora, apenas 12 vistos foram emitidos. Contudo, o mercado imobiliário já começa a dar sinais de retomada em razão da oferta de residências em condomínios fechados, onde é possível ter uma vida prazerosa numa hipótese de um novo confinamento decorrente da Covid-19.

“Desde que Portugal começou a atrair fortunas brasileiras, as imobiliárias se adaptaram para atender os milionários do país, que exigem dos imóveis características peculiares para os padrões europeus do século XXI, como dependências de empregados”

Apenas no complexo onde Thompson comprou o imóvel, 40% das unidades vendidas têm como donos investidores brasileiros. Desde março até o fim de julho, 1.500 brasileiros procuraram informações sobre o empreendimento, mais de 200 manifestaram interesse e outros 60 programaram visitas presencias até o fim do ano ou a partir do momento em que forem suspensas as restrições de voos. No mesmo período de 2019, apenas 339 brasileiros consultaram as condições de compra. “Passei a vida em São Paulo e estava cansado da selva de pedra. Já vivemos em região arborizada em Miami, mas sem espaço comunitário. Temos um jardim com piscina, que permitiu meses de quarentena em contato com ambiente externo, mas sempre dentro da residência. Em Lisboa teremos um campo de golfe para jogarmos. Eu, na verdade, jogo mais tênis. Minha mulher jogou golfe em alto nível e representou a seleção brasileira feminina na década de 1980”, explicou o empresário, referindo-se à esposa, a ex-golfista profissional Ana Cristina Boaventura Thompson. “É nosso projeto de aposentadoria tranquila. Voltar ao Brasil não está no horizonte”, explicou o executivo, hoje com 54 anos. Além do golfe e do tênis, no condomínio há academia, ciclovia, centro de esportes, restaurantes, mercado, cabeleireiro, escolas e vigilância 24 horas. No caso de uma nova quarentena, portanto, o jardim não será mais o limite.

Diretor executivo do Grupo André Jordan, o empresário luso-brasileiro Gilberto Jordan, sócio do empreendimento, que está localizado no Parque Florestal da Serra da Carregueira, a 15 minutos de Lisboa, explicou que a pandemia não derrubou os preços no mercado imobiliário em Portugal, nem mesmo no segmento de luxo. O que subiu, disse ele, foi a procura de brasileiros com dinheiro, que em muitos casos estão perto da aposentadoria ou no começo de uma vida familiar com crianças. “A principal motivação é a fuga do descontrole da pandemia no Brasil. E, prevendo um possível confinamento, sabem que Portugal lidou bem com a pandemia. O brasileiro quer espaço externo, e temos terraços em todas as casas, apartamentos grandes, com escritório para o home office. São compradores sofisticados, que já não precisam estar em um escritório físico. Isso já era uma realidade para nosso empreendimento, e a pandemia alargou esse mercado”, explicou Jordan.

Além do condomínio de Jordan, chamado Belas Clube de Campo, outros empreendimentos portugueses registraram aumento da procura por brasileiros milionários na pandemia. A Luximos Christie’s, que atua no Porto e no Algarve, recebeu cerca de 60 contatos por mês no período e fechou negócio com cinco famílias no primeiro semestre, mesmo diante das restrições de viagem. “O perfil é de um cliente acima dos 50 anos, de classe média alta ou alta, com vida estabilizada. Procuram cidades como Porto e Lisboa, mas também a região do Algarve. Os brasileiros querem campos de golfe e apostam no Algarve, que tem condições privilegiadas para a prática da modalidade. Apreciam a proximidade da praia, condomínios fechados com segurança 24 horas e apartamentos com vista para o mar”, disse Ricardo Costa, diretor executivo da Luximos.

Na Mirantte, com mais de 30 anos de atuação em São Paulo, a demanda pelo mercado português levou à abertura de uma filial lusa há dois anos. Diretor executivo da empresa, Robson Souza disse ter atuado por dez anos no mercado imobiliário da Flórida antes da preferência geográfica dos brasileiros ricos tomar novo rumo. “Fomos ao país exclusivamente para trabalhar com investidores e compradores brasileiros. A procura nunca parou. Tivemos aumento de 40% na pesquisa de nosso site neste período (de pandemia)”, contou.

As imobiliárias de luxo em Portugal já haviam feito uma aposta significativa na ampliação das ferramentas digitais para visitas à distância em 3D, de olho no público brasileiro. Mas, na pandemia, o fenômeno explodiu, e as maiores empresas do mercado intensificaram o treinamento de seus consultores, o investimento em tecnologia e a abordagem dos clientes nas redes sociais. “O confinamento proporcionou um avanço tecnológico. As agências e os respectivos consultores tiveram de dedicar mais horas de seus dias às redes sociais para divulgar suas atividades e manter contato com seus clientes. Essa mudança favoreceu também o relacionamento dos consultores com os clientes no Brasil”, disse a consultora luso-brasileira Marina Perin, do Grupo RE/MAX Latina, que recebe pedidos diários de consultas sobre imóveis vindos do Brasil.

Desde que Portugal começou a atrair fortunas brasileiras, as imobiliárias se adaptaram para atender os milionários do país, que exigem dos imóveis características peculiares para os padrões europeus do século XXI, como dependências de empregados domésticos, raridade no país, e instalação de duchas higiênicas nos banheiros. Esses dois itens lideraram os pedidos de alterações nas unidades imobiliárias antes da compra. “Alguns edifícios em construção começaram a transformar as salas de condomínio e salas de lazer em locais que permitam o trabalho remoto. A pandemia aumentou a procura por imóveis com varandas, terraços, jardins, quintas e terrenos. Basicamente tudo que permita sentir o vento no rosto, sentir o calor dos raios de sol e permita sair da sensação de clausura que viveram”, disse Pedro Fonseca, da RE/MAX.

Não deixa de ser curioso que habitantes de um país com dimensões continentais busquem na diminuta península o espaço para viver. Mas, como para tantas outras mazelas do Brasil, a segurança e o controle da pandemia ajudam a fechar essa conta.

Fonte: Época


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