São cada vez mais as câmaras municipais a disponibilizar espaços para alargar os testes a mais casos suspeitos, em articulação com as administrações regionais de saúde e laboratórios privados. O centro de rastreio no Queimódromo do Porto abre esta quarta-feira e os dois de Lisboa começam a funcionar no fim-de-semana.

A ordem agora é “testar, testar, testar”, como recomendou na segunda-feira o director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS). Depois de uma fase em que os testes laboratoriais a casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus foram feitos a conta-gotas a doentes com critérios muito estritos em Portugal, primeiro no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa) e depois nos hospitais públicos com laboratórios capacitados para a tarefa, várias câmaras municipais e laboratórios privados estão a avançar com centros móveis de rastreios locais para disponibilizarem testes gratuitos a casos suspeitos, a pedido e em articulação com as administrações regionais de saúde (ARS). Até esta terça-feira, segundo o último relatório da situação epidemiológica divulgado pela Direcção-Geral da Saúde (DGS), tinham sido testados 4030 casos suspeitos em Portugal nos laboratórios dos hospitais públicos.

Os modelos e as soluções a adoptar nesta nova estratégia que envolve municípios e laboratórios privados são diversos mas o objectivo é o mesmo: “Alargar o número de testes para termos uma noção muito mais clara da realidade em Portugal” e aliviar a pressão sobre os hospitais públicos que estão a fazer diagnósticos laboratoriais, explica Fernando Almeida, presidente do Insa, o laboratório nacional de referência que centraliza este processo “do ponto de vista técnico e de qualidade”. A organização está a cargo das ARS e da DGS. “Mas isto não significa que todas as pessoas serão testadas”, esclarece Fernando Almeida, frisando que as pessoas serão sempre sujeitas a avaliação clínica e que apenas se avançará para o diagnóstico laboratorial se existirem critérios para isso.

Para já, e depois de a Câmara do Porto ter revelado que vai avançar, em conjunto com a rede de laboratórios Unilabs e a ARS do Norte, com um centro de rastreio do novo coronavírus num modelo drive thru no Queimódromo, em que as amostras são colhidas às pessoas dentro das viaturas – e que começa a funcionar já esta quarta-feira – , o presidente da Câmara de Cascais adiantou que se prepara para abrir dois locais dedicados ao diagnóstico laboratorial para rastrear a população do município, a pedido da ARS de Lisboa e Vale do Tejo, mas num modelo diferente. Aqui, as colheitas e análises serão feitas pelos laboratórios Germano Sousa e Joaquim Chaves.

A Câmara de Lisboa também anunciou esta quarta-feira, em comunicado, que vai instalar duas unidades para rastreio do novo coronavírus, um no Parque das Nações e outro na Escola Básica Quinta dos Frades, no Lumiar, em colaboração com os laboratórios Germano Sousa e Unilabs, e que começam a funcionar no fim-de-semana.

Já em Coimbra, optou-se por recorrer ao laboratório da Faculdade de Medicina em articulação com a ARS do Centro e o centro hospitalar local, adiantou ao PÚBLICO Manuel Machado, que preside à autarquia e também à Associação Nacional de Municípios. “Não é necessário recorrer a privados neste momento. Um centro de rastreio de portas abertas à população teria na hora seguinte uma multidão à porta”, justifica.

Outros municípios apressaram-se, entretanto, a anunciar que vão também abrir centros de rastreio. É o caso do de Vila Nova de Gaia, com o presidente da autarquia a revelar no Facebook que vai disponibilizar pavilhões municipais para o efeito, e o da Câmara de Santa Maria da Feira, que ofereceu o Europarque para instalar um centro de colheita eventualmente também num formato drivethru. Esta última proposta foi depois subscrita pela Associação de Municípios das Terras de Santa Maria – que além de Santa Maria da Feira, inclui Arouca, Espinho, Oliveira de Azeméis, São João da Madeira e Vale de Cambra. 

Em Cascais, um dos centros vai funcionar no centro de congressos local e outro na Cerci (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas) da Rana, detalhou o presidente do município, Carlos Carreiras. Os dois centros estarão abertos a toda a população, 214 mil pessoas, mas, “para não haver grandes aglomerados”, será necessária uma pré-inscrição para marcação e as pessoas serão sujeitas a um rastreio à chegada, para se perceber quem tem critérios para o diagnóstico laboratorial, nomeadamente se esteve em contacto com alguém infectado, se tem sintomas da doença provocada pelo novo coronavírus (a covid-19), “ou seja, se tem algum factor mínimo” para efectuar o diagnóstico laboratorial, esclareceu.

Aqui, a colheita das amostras biológicas não será feita no modelo anunciado pela Câmara do Porto. “Não vamos funcionar como um drivein”, diz Carlos Carreiras. Por isso é que o centro de congressos local fica destinado à população das antigas freguesias de Cascais, Estoril e Alcabideche a Cerci da Rana para os habitantes das freguesias de Carcavelos, Parede e S. Domingos de Rana. Os testes são gratuitos e os custos são suportados pelo Serviço Nacional de Saúde e pelo município.

Críticas aos testes “McDonald’s”

Na segunda-feira, a notícia de que outra rede de laboratórios privados, a Unilabs Portugal, tenciona avançar no Queimódromo do Porto com o “primeiro centro de rastreio para covid-19 em modelo drivethru montado em Portugal”, foi recebida com surpresa e críticas por médicos de laboratórios de hospitais públicos que estão desde há algum tempo a testar doentes e se confrontam com grandes dificuldades no acesso a reagentes em quantidade suficiente para darem resposta ao crescente número de infectados.

Os testes neste modelo copiam a experiência de países como a Coreia do Sul e os Estados Unidos. “É o McDonald’s dos testes”, critica um dos médicos com quem o PÚBLICO falou. “Vai haver tempo para mudar luvas e máscaras? Se esse modelo avançar, as condições de colheita têm que ser muito bem definidas pela DGS”, defende a presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia Clínica (SPPC), Maria José Rego de Sousa. 

Para aumentar o número de diagnósticos, os hospitais públicos que já estão a fazer testes nos seus laboratórios – e já são quase duas dezenas – também tiveram esta segunda-feira luz verde da DGS para passarem a testar todos os doentes suspeitos de estarem infectados que cheguem às urgências sem necessidade de validação prévia pela linha de apoio ao médico, que tem estado muito congestionada e com grandes demoras na resposta. 

“É uma decisão política que não vai servir para nada”, critica um especialista em patologia clínica que trabalha num dos hospitais do SNS e não se quis identificar. Esta medida só vai fazer com que os hospitais públicos que estão a testar casos suspeitos fiquem ainda mais “afogados”, numa altura em que há grandes dificuldades de conseguir obter reagentes no mercado, prevê outro. “Em vez de dizerem às pessoas: retirem-se e protejam-se [em casa], avançam com isto”, lamenta.

Usem máscaras e luvas em vez de fazerem testes

Sendo importante perceber quem está infectado, os testes “vão ter mais valor quanto mais específicos foram os sintomas”, sublinha Maria José Rego de Sousa. “Se nos afastarmos dos indicadores clínicos e da definição de caso suspeito, vamos começar a testar muitas pessoas e o valor preditivo negativo do teste vai baixar”, avisa. Além disso, um resultado negativo não significa necessariamente que o doente não esteja infectado, uma vez que pode estar a ser testado cedo demais, o que pode levar a uma falsa sensação de segurança. “Esta questão é muito complicada. As pessoas estão ansiosas e querem ser testadas. Mas é sempre útil dizer-lhes que, se realmente têm suspeitas, façam quarentena em casa”, enfatiza.

Ainda assim, e apesar da fase de contenção do surto já ter passado em Portugal, a presidente da SPPC destaca que o facto de estarmos actualmente em fase de mitigação não implica que se deixe de investir na contenção, porque é fulcral travar o ritmo de evolução da doença de forma a evitar que a curva de novos casos “cresça exponencialmente e os serviços de saúde fiquem saturados”. Daí a necessidade de testar, mas sempre, insiste, apenas casos que obedeçam aos critérios bem identificados pelas autoridades de saúde internacionais e nacionais. Quanto àqueles que querem ser testados sem critérios para isso, aconselha que fiquem em casa e “usem máscara e luvas” como fizeram os habitantes de Macau. “É uma atitude cívica e sai mais barato”.

Fonte: Público


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